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Brasil na 2ª guerra

Na década de 1940, o Brasil viveu um interessante período político no qual a nação vivenciou a fase ditatorial da Era Vargas, no chamado Estado Novo, que perdurou entre os anos de 1937 e 1945. Conforme sabemos, esse terceiro mandato do presidente Vargas foi garantido graças a um golpe em que – através da divulgação de um falso golpe comunista – aboliu as liberdades democráticas no país e anulou o texto constitucional formulado em 1934.

Nessa época, Vargas empreendeu uma série de ações populistas que o eternizaram como o “pai dos pobres” e, ao mesmo tempo, promoveu a perseguição de seus inimigos políticos e o controle dos meios de comunicação. Nesse sentido, muitos historiadores costumam apontar certa aproximação político-ideológica entre o regime varguista e os governos totalitários (nazismo e fascismo) que tomavam conta de Europa depois da Primeira Guerra Mundial.

Tal comparação deve ser feita com muito cuidado, pois o professor não pode deixar que seus alunos pensem que Vargas simplesmente “imitou” os regimes nazi-fascistas na Europa. Na verdade, é de grande importância que o educador saliente a postura política autônoma de Getúlio Vargas. Em junho de 1940, o presidente realizou um discurso elogiando o movimento nacionalista das “nações fortes”, fazendo uma alusão indireta aos nazi-fascistas.

Esse discurso foi visto como uma grande ameaça à hegemonia política dos EUA no continente americano. Após esse episódio, Vargas conseguiu barganhar com os americanos um vultoso empréstimo de 20 milhões de dólares utilizados na construção da Usina de Volta Redonda. No entanto, os recursos barganhados obrigaram o governo brasileiro a apoiar militarmente os EUA contra os regimes nazi-fascistas europeus na Segunda Guerra Mundial.

Com isso, se criou uma situação contraditória: a ditadura de Vargas lutava em favor da democracia liberal no Velho Continente. O embaraço político causado por essa situação, conforme atestam várias obras, possibilitou a crítica e a posterior queda de Getúlio. No entanto, para demonstrar a justificativa de tom nacionalista que se deu à entrada do Brasil na guerra, o professor pode trabalhar com uma conhecida canção da época.

Na letra da canção “Canção do Expedicionário”, o professor pode ressaltar como os versos utilizados retratam os nossos combatentes como heróicos nacionalistas vindos das mais diferentes paisagens do Brasil. Além disso, é de grande valia ressaltar como essa mesma canção se utiliza até das vestes dos militares para reafirmar a defesa da soberania nacional. Em certo trecho, a “mira do fuzil”, a “ração do bornal”, “a água do cantil” e as “asas do meu ideal” estão unidas pela “glória do meu Brasil”.

A partir de então, diversas outras canções foram produzidas para se retratar a “louvável” empreitada militar da nação brasileira. Nesse aspecto, esse nacionalismo que tomou conta desta época pode também ser visto como um instrumento de união do povo brasileiro em prol de sua autonomia, bem como uma maneira de elogiar Getúlio Vargas como um líder político que traduz os anseios da população.

Nesse sentido, o professor pode finalizar a sua explanação com a apresentação da canção “Vitória, vitória”, em que seus versos tentam harmonizar o presidente às chamadas necessidades nacionais. Nessa música, vale a pena ressaltar como os mesmos versos que cantam “cada brasileiro será um fuzil/ para defender o nosso Brasil” – motivando a ordem e o nacionalismo – também lembram que tais ações serão feitas “com o presidente sempre nos guiando/ e o onipotente nos abençoando”.

Dessa maneira, o professor pode salientar por meio dessa documentação sonora como as questões do nacionalismo e da liberdade se confundiam com o elogio ao presidente. A partir da apresentação da letra ou por meio da elaboração de uma atividade interpretativa, o professor apresenta aos alunos as relações entre a arte e as questões políticas que tomaram o país naquela época.

PARTICIPAÇÃO DAS FORÇAS ARMADAS

E DA MARINHA MERCANTE DO BRASIL

NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

(1942-1945)

Cláudio Moreira Bento

Pela primeira vez, apresenta-se uma visão estratégica global e integrada da participação do Exército, da Marinha de Guerra e da Mercante e da Aeronáutica na Segunda Guerra Mundial, nas batalhas do Atlântico e do Teatro de Operações do Mediterrâneo.

A pesquisa comemorativa do cinqüentenário da entrada do Brasil no grande conflito, em 22 de agosto de 1942, cobre lacuna nesta Revista sobre nossa efetiva participação.

O Brasil participou do esforço de guerra aliada a partir de 22 de agosto de 1942, quando entrou na guerra depois de reconhecer o estado de beligerância contra ele de parte do Eixo e, até 8 de maio de 1945 – Dia da Vitória. Sua extensão geográfica (a quinta do mundo), sua posição geopolítica debruçada sobre o Atlântico e mais a sua solidariedade ao Continente Americanos não lhe permitiram ficar neutro. Assim participou, pois, do esforço de guerra aliado nos teatros de operações do Atlântico e do Mediterrâneo, em decorrência do Acordo Bilateral Brasil-EUA, de 23 de maio de 1942, que foi coordenado pela Comissão Mista de Defesa Brasil-EUA, desdobrada em Washington e no Rio de Janeiro. As Forças Armadas Brasileiras assim participaram: o Exército defendeu o território brasileiro e as instalações militares nele existentes com ênfase na Zona de Guerra então criada e dentro desta o Saliente Nordestino (RN, PB, PE, AL) e nele o triângulo Natal-Recife-Arquipélago de Fernando de Noronha, além do envio da Força Expedicionária Brasileira-FEB ao TO do Mediterrâneo, integrando o V Exército dos EUA; a Marinha encarregou-se da defesa dos portos, patrulhamento oceânico e escolta de comboios marítimos, isoladamente, ou integrando a 4ª Esquadra Americana, com Quartel General no Recife; a Aeronáutica executou ações de patrulhamento oceânico e proteção de comboios, isoladamente, ou integrando a 4ª Esquadra Americana, além do envio de um grupo de caça (1º Grupo de Caça) que integrou a Força Aérea Aliada do Mediterrâneo e uma Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO) que combateu sobre o controle operacional da FEB, também na Itália. A cooperação do Brasil com os aliados inicialmente ficou restrita ao Continente Americano ficou restrita ao Continente Americano. Cessada a ameaça de uma ação do Eixo de invasão das Américas pelo Saliente Nordestino, resolução da Comissão Mista de Defesa Brasil-EUA de nº 16, de 21 de agosto de 1943, ampliou a ação militar do Brasil o que se traduziu, na prática, no envio de tropas de terra e ar para o teatro do Mediterrâneo e ação de nossa Marinha além de águas continentais americanas. Em contrapartida o Brasil recebeu dos EUA para o cumprimento de suas missões militares no Atlântico e no Mediterrâneo o material bélico correspondente, pela Lei de Empréstimos e Arrendamentos (lend-lease), saldada em 1954, além de instrução americana correspondente à guerra anti-submarino, proteção de comboios, caça aérea, defesa antiaérea e de costa e emprego de divisões de Infantaria. O esforço militar inicial do Brasil foi para defender em ações conjuntas de suas forças de terra, mar e ar o Saliente Nordestino, que, junto à costa do Senegal, na África, formava o estreito Natal-Dakar, através do qual os alemães, antes de serem derrotados no norte da África, podiam tentar uma ação aeronaval ou mesmo ações tipo comando contra o NE, a partir da conquista do Arquipélago de Fernando de Noronha. O Saliente Nordestino, através da base aérea de Parnamirim-Natal, cedida aos americanos junto com a base de Belém-PA, se constituiu em acidente capital estratégico integrando ponte aérea militar americana Natal-Dakar, que foi essencial para a conquista aliada do norte da África e do Oriente Médio, invasão da Europa pela Itália e mesmo apoio a operações dos EUA no Extremo Oriente. A cooperação brasileira ao esforço aliado, a nível estratégico, se caracterizou: pela defesa do Saliente Nordestino contra uma possível invasão das Américas pelo Eixo, através do estreito Dakar-Natal; pela captura, pela FEB, de duas divisões do Eixo com 20.753 homens; pelo fornecimento de materiais estratégicos como cera de carnaúba, cristal de rocha e borracha, esta colhida pelos soldados da borracha que se embrenharam na Amazônia e pela cessão das bases aéreas de Natal e Belém aos EUA, que apressaram a vitória aliada na África, no Oriente Médio, na Europa e mesmo na Ásia. A base de Natal permitiu que milhares de aviões militares dos EUA dela saltassem, sem escalas, para a África e de lá para a Europa e Extremo Oriente. Ela se projetou, inclusive, na vitória inglesa de El Alamein. Sem ela teria sido muito difícil a ajuda americana aos ingleses. Daí decorreu a expressão – O Trampolim da Vitória – dada ao Saliente Nordestino, onde se localizava a base aérea de Parnamirim-Natal. O Brasil perdeu nesta guerra 1.889 brasileiros por morte; foram afundados 34 de seus navios, dos quais 31 mercantes e abatidos 22 de seus aviões, além de haver gasto com a guerra 21 milhões de cruzeiros em cálculo da época. Durante a guerra as Forças Armadas do Brasil se modernizaram doutrinariamente. A renovação do seu material bélico foi expressiva com apoio do lend-lease. Elas se equiparam com o que havia de mais moderno: caças-submarinos; aviões de caça, de bombardeio e anti-submarino; contratorpedeiros de escolta; carros de combate; canhões de campanha, anticarro, antiaéreo e de costa, radares e sonares; detetores de minas; bombas de gasolina gelatinosa, etc… A instrução se atualizou com base nos padrões das Forças Armadas dos EUA e na experiência operacional adquirida por frações de nossas Forças Armadas que integraram a 4ª Esquadra Americana no Nordeste na Batalha do Atlântico ou que integraram a Força Aérea Aliada do Mediterrâneo e o V Exército dos EUA, na Campanha da Itália. O Brasil, no rol de suas vitórias militares, incluiu mais os combates de Monte Castelo, Castelnuovo, Montese e Coléchio-Fornovo, vitórias mais expressivas de sua FEB com o concurso da FAB, através de seu 1º Grupo de Caça e 1ª ELO e da Marinha de Guerra que ajudou a escoltá-la para a Itália e trazê-la de volta. O desenvolvimento da Aeronáutica em função da guerra teve grandes reflexos na acelerada modernização da Aviação Civil do Brasil. Não tem fundamento histórico a versão muito difundida, mas reiteradamente rebatida pelo construtor da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, general Edmundo de Macedo Soares, de que ela foi o resultado de financiamento dos EUA com a condição de o Brasil entrar na guerra. Afirmação negativa feita por aquela autoridade na condição de historiador, nos institutos Histórico e Geográfico Brasileiro e de Geografia e História Militar do Brasil. O último ele presidia ao falecer, quando, pouco antes teve a tristeza ao assistir pela TV a mudança de seu nome por outro, no calor de uma paixão política, em uma praça central da Cidade do Aço. Além da destacada defesa das Américas feita pelo Brasil, ao defender o Saliente Nordestino de uma invasão do Eixo e na Proteção do tráfego marítimo no Atlântico Sul (Oriental), com apoio, em suas bases navais e aéreas e forças aéreas e navais que integraram a Força Naval do Atlântico Sul (EUA) e 4ª Esquadra Americana, o Brasil foi o único país da América Latina a participar, fora do Continente Americano, do esforço de guerra aliado, com tropas expedicionárias, da cruzada bélica contra o Eixo, em defesa da Democracia e da Liberdade Mundial. Após a guerra por deferência aliada, o Brasil manteve de 1945-50, na Alemanha ocupada, uma missão militar brasileira, na qual o Exército foi representado pelo coronel Aurélio de Lyra Tavares, que a chefiou, e futuro ministro do Exército Brasileiro e atualmente historiador militar e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras. O Brasil já havia participado do esforço militar aliado na Primeira Guerra Mundial, através de sua Marinha, representada pela Divisão de Operações Navais (DNOG) ao comando do alte. Pedro Frontin para operar no litoral da África, de Serra Leoa para o Norte, com oito navios de guerra, como parte de esquadra aliada ao comando do almirante inglês Heatcoat Grant e o Exército, representado por sua Comissão de Estudos de Operações de Guerra e de Aquisição de Material na França, constituída de 24 oficiais que combateram no Exército da França, dos quais 8 foram promovidos por atos de bravura. Comissão chefiada pelo gen. Felipe Aché ao qual também subordinou-se à missão médica especial enviada pelo Brasil e composta de médicos do Exército, Marinha e civis, formados ou acadêmicos, à disposição do Comando Único dos Exércitos Aliados. Um reduzido número de pilotos do Exército e da Marinha se adestraram respectivamente nas aviações militares da França e Inglaterra e nelas combateram, se constituindo, após, em sementes das aviações do Exército e Marinha que, fundidas em 1941, deram origem à Força Aérea Brasileira. Estes pioneiros, com auxílio de Missão Naval Americana na Marinha e Missão Militar Francesa para o Exército e sua aviação militar, contribuíram entre as duas guerras para atualizar toda a Marinha e o Exército na doutrina que dominou a 1ª Guerra.

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